Almeirinense chega ao teatro D. Maria II

Rosto, Clareira e Desmaio. O poeta Miguel Manso é o único poeta vivo desta trilogia. Nasceu em 1979 mas já tem uma dezena de livros publicados, entre edições de autor, pequenas e grandes editoras. Vive entre a adesão eufórica de uns e a indiferença de muitos.

O próprio faz por se manter relativamente discreto. Este é, pois, um momento possível para abrir a porta a uma poesia que se alimenta do porvir e de um autor que escreve sabiamente: “Que o texto seja não o texto consumado mas o caminho para a consumação do texto”. A encenadora Susana Vidal traz para o palco um poema que nasce de um diálogo entre Manso e o livro Máscara, Mato e Morte: Textos para Uma Etnografia de São Tomé, do antropólogo Paulo Valverde, tal como Daniel Faria, falecido em 1999, vítima de malária. Valverde era um dos mais emblemáticos antropólogos portugueses e este ensaio está impregnado da linguagem poética que caracterizava a sua obra.

Este livro, que seria o último de Valverde, nasceu das investigações que o cientista desenvolveu na ilha de São Tomé, entre 1995 e 1999, sobre otchiloli, um ritual que teve origem nas representações teatrais que os europeus lá fizeram da tragédia do Imperador Carlos Magno que, face ao homicídio do filho, o Príncipe Dom Carloto, deve optar entre as razões do sangue e as razões do Estado. Além das atuações do tchiloli, o ensaio vai ainda aos quintais dos mestres curandeiros e às cerimónias curativas que neles se realizam, os djambis. Este livro, que se tornou um marco para a Antropologia portuguesa, é resgatado pelo poeta Miguel Manso que sobre ele construiu o poema que agora se faz de novo teatro. Rosto, Clareira e Desmaio junta, assim, dois textos poéticos, cada um deles refletindo à sua maneira sobre as máscaras, o visível e o invisível, o sagrado e o profano.

Colocado voluntariamente à margem do mundo editorial, Miguel Manso é um caso singular na literatura portuguesa contemporânea. Desde 2008 vem publicando, a expensas próprias, os seus livros de poemas: volumes simples, brancos, com grafismo sóbrio e paratexto fotográfico, uma série em curso (são já cinco) que o poeta apelidou «Os Carimbos de Gent», porque nas capas são reproduzidas imagens de carimbos comprados numa loja de velharias daquela cidade belga. Embora razoavelmente diferentes entre si, os livros partilham um mesmo tom, uma escrita atentíssima à pulsação caótica do mundo, pródiga em «entusiasmos verbais», em «proezas de linguagem» e com uma certa queda para as palavras raras (um verdadeiro festim para quem gosta de vocabulário arcaico, daquele há muito enterrado no fundo dos dicionários).

Livro:

 

Fonte: observador.pt e bibliotecariodebabel.com

Foto: Público