Da esquerda para a direita: Eleições

Terminada a corrida à Casa Branca, o mundo ocidental, ou para ser mais preciso, o mundo das democracias instituídas, entrou numa onda de choque e indignação. Descobrimos, mais uma vez, um politólogo em cada café, um entendido em cada Facebook, um cidadão responsável em cada esquina. E como se os destinos da Europa ou de Portugal estivessem em jogo de forma directa, também alguns portugueses (e Almeirim não foi excepção) entraram a pés juntos nas críticas ao vencedor das eleições americanas. O discurso escatológico das guerras mundiais, da repetição do holocausto e das novas 7 pragas com a vitória de Trump, só encontra tamanha estupidez no seu contrário: a exaltação de supostas virtudes de Clinton que ainda ninguém viu ou explicitou.
Intoxicados com o maniqueísmo da escolha do mal menor (os políticos adoram fazê-lo), toda a campanha foi marcada e decidida em dois factores: uma vergonha e um erro crasso.
Desde o início da candidatura de Trump, iniciada oficialmente há mais de um ano, que toda a comunicação social – sem ética ou pudor – iniciou uma campanha belamente orquestrada de abate de um candidato. Não existiu um jornal na América ou na Europa, mais à esquerda ou mais à direita, mais republicano ou mais democrata que fizesse o seu trabalho de forma isenta de estórias e pantominices. Esta foi a grande vergonha que pesou nas eleições do passado dia 9. Como se costuma verificar na história, e muitas vezes com maus resultados, alguém que gera tantos ódios, gera os mesmos ou mais amores. Por outro lado, do ponto de vista da operação política, os dois candidatos jogaram as cartas de forma bem diferente. Enquanto que Hillary Clinton, a denominada candidata do sistema, centrou a sua campanha no que Donald Trump dizia, o seu adversário centrou a sua campanha naquilo que ela não dizia.
LGBT, imigração, ambientalismo, direitos dos animais, minorias étnicas e globalização foram o essencial da campanha de Clinton, focada na destruição de carácter do adversário e esquecendo-se, contudo, do mais importante: economia e empregos. Foi neste capítulo que Trump, falando para um eleitorado rural ao qual a globalização tirou o sustento, marcou pontos com facilidade e Clinton, amarrada a Washington e aos grandes de Wall Street, não pode navegar.
Decidida a campanha, resta perceber o óbvio: Sim, Donald Trump é misógino, xenófobo, anti-globalização e por aí fora. É, essencialmente, um tipo diferente, com um discurso desassombrado e fora do sistema. Foi nisso que os eleitores votaram, não no resto.
A lição a reter é mais uma vez a mesma, na política, na guerra ou no futebol, quem não joga para ganhar, mas para ver o outro perder, inevitavelmente fica para trás. E por isso, e sem grandes preocupações, olhemos para a vitória de Trump como uma vitória do pragmatismo, e não como um apocalipse moderno. As forças naturais de Washington e do mundo irão certamente temperar o seu carácter, e Trump será, no final de contas, aquilo que já se começa a prever: apenas mais um presidente.

Diogo Pascoal
Juventude Popular

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