“Procuramos formar Homens, não só como Escuteiros”

Bruno Caipira é o novo Chefe do Agrupamento de Almeirim e numa grande entrevista a O Almeirinense fala dos desafios para este mandato, dos valores que se procuram transmitir e ainda de como a morte de João Fragoso abalou o grupo no ano que está praticamente a terminar.

Quando é que entrou para o escutismo?
Entrei para o escutismo no ano de 1986, com seis anos de idade.

O que o levou a entrar?
O facto de a minha irmã e de o meu primo lá andarem fomentou a minha curiosidade. Pensei, por isso, experimentar.
Qual a secção em que gostou mais de estar, como escuteiro e também como dirigente?
Todas as secções são importantes no nosso percurso, e ficamos com excelentes recordações de cada uma. O mais importante é saber vivê-las e aproveitá-las em cada momento e em cada idade da nossa vida.

Quais as principais diferenças que notou entre cada uma das secções?
Enquanto escuteiro, e vivendo cada secção com intensidade, as diferenças são as próprias da idade. Enquanto que nos Lobitos (dos 6 aos 10 anos) brincamos e fazemos todas as atividades acompanhados pelos dirigentes, é nos Exploradores (dos 10 aos 14) que descobrimos o valor da autonomia, ainda que sob a supervisão dos adultos. É na passagem pela terceira secção, os Pioneiros (dos 14 aos 18), que começamos a sentir a responsabilidade do fazer por nós próprios, e é onde o chefe está apenas para orientar e ajudar. Na última secção, os Caminheiros, cada escuteiro é convidado a descobrir e a descobrir-se enquanto Homem. É naturalmente, a secção onde refletimos sobre o nosso percurso nos escuteiros, e a rampa de lançamento para poder vir a ser dirigente do movimento.

Recorda-se de algum momento que o tenha marcado de forma especial?
Sem dúvida, a minha promessa de dirigente. É o momento em que nos apercebemos de que, a partir dali, somos realmente responsáveis pelos jovens do nosso agrupamento. Foi realmente marcante, ainda para mais, com um percurso tão longo.

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Qual a atividade ou atividades que mais o marcaram?
Sem dúvida, o 18º Acampamento Mundial de Escuteiros na Holanda, em 1995. Não só pela dimensão mundial do mesmo, mas também pelas circunstâncias do tempo em questão. Note que fui para um país estrangeiro com 15 anos de idade e, para ajudar, com quatro equipas nas quais não conhecia ninguém. Os restantes elementos de Almeirim que participaram estavam num subcampo a 2 km de mim. Isto é ilustrativo da dimensão do espaço. Também pela ausência das tecnologias de hoje, a minha comunicação com eles era limitada às visitas que lhes conseguia fazer, e nem sempre os encontrava em campo, pois as atividades e horários eram diferentes. Para casa ligava quase todos os dias, com chamadas a pagar no destinatário, que apenas podíamos fazer ao final do dia quando terminávamos as nossas atividades e dependiam da sorte de ter alguém em casa, na altura, para as atender.

Para si, o que é ser escuteiro?
Essa é uma pergunta difícil e que eu, pessoalmente, me coloco várias vezes. Penso, no entanto, que a magia do escutismo reside aí mesmo, na renovação dessa pergunta, da entrega e da promessa. Ser escuteiro é, acima de tudo, utilizar todas as ferramentas que nos dão e que aprendemos e colocá-las ao serviço dos outros. É, se quiser, uma definição mais simples – ser feliz. Não, feliz de qualquer forma. Feliz como o nosso fundador nos ensinou: a fazer os outros felizes.

Que valores lhe transmitiram e que agora, como chefe, procura transmitir?
Os valores que procuramos transmitir estão patentes na nossa Lei e Princípios. Enquanto dirigente do CNE, procuro retribuir os valores que os meus chefes me transmitiram, colocando-me ao serviço e transmitindo-os aos jovens do agrupamento. A lealdade, a amizade e o serviço aos outros estão sempre presentes, de uma forma ou de outra, nos nossos ensinamentos. É de referir também que somos um movimento da Igreja Católica. Como tal, a vivência da Fé e do amor a Deus são também parte integrante da bagagem moral que oferecemos aos nossos escuteiros. É nesta base que procuramos formar jovens, não só como escuteiros, mas como Homens para um mundo novo.

Quais são as principais diferenças da vivência do escutismo quando entrou, e agora?
Penso que os jovens agora, e pela condição dos tempos, se distraem e se ocupam com mais facilidade que no meu tempo de jovem. Hoje em dia, quase todos os jovens têm várias atividades extracurriculares, televisão com centenas de canais, telemóveis com acesso à internet e jogos, etc. Tudo isto somado representa uma canalização das energias e do tempo dos jovens para imensas coisas diferentes, sendo o escutismo, muitas vezes, apenas mais uma. É por isso natural que a entrega e disponibilidade dos escuteiros de hoje seja bastante diferente do que há alguns anos atrás.

O que o levou a candidatar-se a Chefe de Agrupamento?
Foi um processo natural. Entendo que a renovação do escutismo passa também pela renovação dos seus quadros de dirigentes. Dessa forma, e somando o facto de ter sido Chefe de Agrupamento Adjunto no ano passado à minha experiência de 30 anos no escutismo, entendi natural lançar-me a este desafio. O lema dos dirigentes do CNE é “Alerta para Servir”. É com esse espírito que encaro o cargo que ocupo: servir.

A que se propõe?
Acima de tudo, a dar continuidade ao bom trabalho do meu antecessor no agrupamento e a ajudar a concluir alguns projetos e ideias iniciados no seu mandato mas que, por diversas circunstâncias, ficaram em suspenso. Formalizámos, por exemplo, no início deste ano, a criação do nosso museu escutista, onde daremos a conhecer a todos os interessados bastante material e documentação escutista que reunimos ao longo destes 42 anos de existência. Além disto, tenho como missão essencial a colaboração permanente e solidária do agrupamento com a paróquia e a sociedade em geral, tentando levar o escutismo deste agrupamento ao maior número de jovens possível.

É possível para o agrupamento crescer mais? Quando faço esta pergunta, incluo não só o número de elementos, como também o espaço físico.
A resposta é complicada, mas, com algumas contingências, penso que sim. Ao nível do número de elementos temos registado um crescimento de ano para ano, obrigando-nos, de certa forma, a ter que o controlar. Este ano foi prova disso. É o ano em que o agrupamento tem mais elementos desde a sua fundação, e isso obriga-nos a trabalhar em dois limites. Em primeiro lugar, um limite que se prende com o número de dirigentes do agrupamento. Queremos assegurar que os nossos jovens estão acompanhados pelo número necessário de adultos para a sua formação e crescimento em segurança. Não tendo mais adultos para os acompanhar, temos que criar uma lista de espera em algumas secções todos os anos. Por outro lado, a nossa sede, pese embora as duas ampliações a que já foi sujeita, é antiga e está sobrelotada. Isto significa mais um entrave considerável à entrada de novos elementos. Se conseguirmos resolver estes dois problemas, ficaremos felizes por admitir novos elementos na nossa grande família.

Como é que o grupo tem tentado ultrapassar o desaparecimento inesperado do Chefe João Fragoso?
No início foi, naturalmente, um grande choque para todos. Isso é visível não só nos escuteiros, mas também em toda a comunidade. Agora, e a pouco e pouco vamos tentando viver deixando essa dor para trás, e ficando apenas com a saudade. O João era alguém especial enquanto homem, e no agrupamento, enquanto chefe. Era alguém que conseguia, de forma natural e pedagógica, levar a vivência da fé e da esfera espiritual aos nossos jovens. É ao recordar o que aprendemos com ele, que vamos lidando mais facilmente com a dor da sua partida.