“Desempenhar o papel de Branca foi das melhores notícias que eu recebi” (c/vídeo)

 

O jornal Almeirinense foi ao encontro de Ana Varela, a atriz almeirinense que está presente no elenco da novela da TVI “A Impostora” e que participou na versão mais recente de “O Leão da Estrela”, no papel de Branca. Fomos descobrir quem é Ana Varela e como o seu passado se liga à cidade de Almeirim.

Como é a Ana Varela fora dos ecrãs?
É uma mulher casada (risos), tem uma filha e está grávida de outra, é atriz, ama o que faz. É uma pessoa feliz.

Estudou Economia na Universidade Nova de Lisboa. Como é que acaba no mundo da televisão?
Eu fiz o ciclo e o liceu em Almeirim. O liceu (ensino secundário) na área de economia e quando acabei o curso decidi ingressar no ensino superior. Entrei na Universidade Nova, em Economia, até com uma média ótima, só que depois percebi que não era bem essa a minha área. Eu costumo sempre dizer que não podia ter escolhido ser atriz antes de ter ido para a faculdade. No nosso meio, pelo menos naquela altura, não havia muitos atores, não se falava muito em ser atriz. Perguntam “o que queres ser?” aos jovens que estão em determinada área e não te respondem, propriamente, ator. Não era uma coisa falada, nem era sequer uma hipótese, além disso, os meus pais tinham imenso gosto que eu tirasse um curso superior. Economia foi talvez a escolha, mais pelo ramo da família, devido à empresa que o meu pai tem na região. Sempre acompanhei a empresa e sempre fiz parte da gestão. Era a escolha mais óbvia, seguir economia. Depois, em Lisboa, outras portas se abriram. Desde cedo e desde que cheguei à capital que muitas pessoas me abordavam, scooters de agências para fazer castings. Eu fui resistindo, só que houve uma altura em que eu disse que devia experimentar, porque tinha tanta gente a convidar-me para… Pensei: “Porque não?”. E acabei por nunca mais sair daqui, graças a Deus.

De que forma é que os “Morangos com Açúcar” marcaram a sua carreira?
Os morangos surgem a seguir a este T2. No fim de ter feito o T2, que foi uma série online mas que foi passado um compacto na RTP1, ao domingo, eu fui convidada para fazer o workshop dos morangos, que é um workshop de entrada na série. Depois de ter feito o workshop tive provas, e provas, e aulas, e provas. Quando saíram os resultados, a notícia era que não tinha ficado no elenco, o que me deixou de alguma forma desapontada, mas que foi o twist na minha vida. Apesar de não ter ficado, eu percebi que não ia conseguir deixar de ser atriz. Tinha saído da faculdade e tinha tomado a decisão, na minha cabeça, que ia entrar no conservatório nesse ano. Deixar economia e entrar no conservatório. Meti na cabeça que ia formar-me e estudar esta área para conseguir continuar. Dias mais tarde, ligou-me o André Cerqueira, que estava à frente da Plural, na altura, a dizer “Ana, ouvi dizer que estavas muito triste por não teres entrado nos Morangos, fica descansada que é mentira, tu entraste e ficaste no elenco.” Os morangos foi um projeto muito difícil, a maior parte dos meus colegas, ao contrário de mim, não tinham formação nenhuma. Os morangos foram uma escola em termos de técnicas de televisão, em termos de formação de atores, não. Aprendes com o que tens, fazes com o que tens, com as equipas que tens, que são maravilhosas, estão lá a dar o máximo. Eu não só tinha a parte de atriz, como também fazia uma personagem que era bailarina, dançava tudo e mais alguma coisa; então, além de ter de estudar a personagem e decorar os textos, tinha imensos ensaios e espetáculos durante a semana. A minha série era a série musical, portanto, de vez em quando, tínhamos uma exibição, então tínhamos imensos espetáculos e ensaios. Foi um projeto… duro, de cansativo e trabalhoso. Foi importante ter passado por ele.

Já tem experiência no teatro. Gostou?
No teatro é onde testamos a nossa flexibilidade artística. No teatro tu tens de te desafiar e é aí que tu cresces. Não faz sentido não fazer teatro, na minha opinião. Deve-se passar por todas as áreas, televisão, cinema e teatro. O teatro é maravilhoso, o nível de profundidade das personagens que tu alcanças é algo que na televisão não dá tanto para experimentar porque é muito rápido. O teatro permite-te ter tempo para ir fundo na personagem e no argumento.

Prefere o teatro ou a televisão?
Prefiro todos (risos). Prefiro o teatro, prefiro a televisão, prefiro o cinema, de igual modo.
O trabalho de ator não é só decorar os textos e as cenas e ir para a frente da câmara representar.

Que trabalho de casa é que implica?
Primeiro, um ator, como qualquer ser humano, tem que viver mas estar presente nas suas experiências, em tudo o que passa na vida. Tem de estar apto para sentir. Isso faz a nossa bagagem, o nosso baú. Depois tens, efetivamente, de decorar textos, construir a personagem – que seja interessante – é esse o desafio. Tens de lhe dar características, tens de lhe dar alma. Os textos são só aquilo que verbalizamos. Todos nós somos mais que aquilo que verbalizamos. É isso tudo que temos de construir enquanto atores.

O seu marco no currículo em cinema é “O Leão da Estrela”. Como é que surgiu o convite para integrar o elenco?
O Leonel Vieira, o realizador, fez entrevistas a vários atores. Fez algo que eu acho muito interessante, conheceu-os, falou com eles, antes de fazer qualquer tipo de audição. Nessa entrevista, o Leonel percebeu um pouco da pessoa que eu sou, da atriz que eu sou. Fiz um casting e depois, já não sei precisar bem quando, recebi um telefonema do primeiro assistente a dizer que gostavam imenso de contar comigo para desempenhar o papel de Branca. Como podem imaginar, foi das melhores notícias que eu recebi na minha vida.

Como é que preparou a personagem?
Esta versão de “ O Leão da Estrela” não é um remake, ou seja, é uma versão que nem se passa nos dias em que se passa o original. Revi o filme para me enquadrar mas depois trabalhei com o novo argumento, o do Tiago Santos, e através do argumento consegues tirar tudo, os traços, o comportamento, a essência da personagem. Aproveitei para fazer coaching para esta personagem com a Cristina Cavalinhos, que é uma atriz maravilhosa, onde vesti a pele da personagem antes de ir para a rodagem, onde trabalhei o texto. No cinema consegues fazer um trabalho mais aprofundado. Lembro-me de sair, uns dias antes da rodagem, com a personagem para a rua. É uma coisa que nós, atores, fazemos para trabalhar a personagem. Foi um trabalho de preparação intenso, com tempo, que é maravilhoso para saborear. Foi o trabalho de construção que mais gozo me deu fazer.

Como é que se sentiu ao lado de grandes atores como o Miguel Guilherme, a Alexandra Lencastre ou o Vitor Norte?
Ao princípio foi assustador e depois passou a ser maravilhoso porque era fantástico. O Miguel Guilherme, a Alexandra Lencastre ou o José Raposo no mesmo elenco só pode dar um bom ambiente. Foi ótimo ver o trabalho deles. O trabalho do Miguel Guilherme é ótimo. Foi muito bom estar em cena e ter o prazer de o ver ali ao vivo. Foi uma grande oportunidade. Ver o trabalho deles, ver como faziam tudo. Foi um misto de trabalho de campo com estar a fazer o meu trabalho. Estás a fazer o teu trabalho mas a maior parte de ti está a aprender e a beber de tudo o que eles te dão. Devemos ter essa postura para tudo na vida.

Como atriz, qual foi o seu maior desafio até agora?
Todos são intensamente desafiantes e cada um à sua maneira. “O Leão da Estrela” foi um grande desafio, mas esta “Impostora” também foi um grande desafio. Foi o regresso às novelas. A novela é uma maratona, são 10 meses a gravar. Estivemos em Moçambique, estivemos em Portugal, estivemos em imensos sítios. É um projeto longo, tens que estar física e psicologicamente apto para um projeto desta envergadura. Este último projeto foi muito desafiante, por tudo o que significa: pelo regresso à televisão, por fazer um bom trabalho, as contracenas que tinha, o projeto e o elenco que tem. Posso falar desta “Impostora”, que acabou de estrear, e que é um projeto muito intenso e que foi muito bom, mesmo.

Que próximos projetos podemos esperar?
Agora vou fazer uma pausa. Até porque defendo, claramente, que as pessoas e os atores precisam de se reciclar. Se não te reciclares, não vais trazer nada de novo. Preciso de fazer uma pausa e depois logo se vê o que é que aparece. Têm aparecido sempre coisas especiais, portanto eu acredito que mais coisas vão aparecer. Coisas interessantes de se fazer em ficção em Portugal.

Com que frequência volta a Almeirim?
Não com tanta quanto desejava. Quando estou a gravar tenho muito pouca disponibilidade para ir, mas os aniversários da família, o Natal, nunca falham.

Vamos fazer um flashback. Viveu a sua infância na Parreira. Que escolas frequentou?
Fiz a escola primária na Parreira. Lembro-me de ir a pé para a escola, de esperar pelos colegas, marcávamos à mesma hora para irmos para a escola. O ciclo e o Liceu fiz em Almeirim. Apesar de a Parreira fazer parte da Chamusca, eu quis ir para Almeirim.

Que professores recorda com mais carinho?
Os professores, lembro-me mais dos do Liceu. Lembro-me da professora de Português, da professora de Técnicas Empresariais, da professora de Matemática, a professora Vanda Rosa. São pessoas que eu não esqueço e que, hoje em dia, graças ao Facebook, podemos manter e contacto e eu mantenho com alguns. Lembro-me muito bem, ainda, da professora primária, a professora Ana.

Que pessoas ainda carrega da sua juventude em Almeirim?
Tenho vários amigos com quem ainda me dou. Uma delas, a Sandra, é madrinha da minha filha. Falamos quase todos os dias. Tenho amigos e família ainda em Almeirim.

 

 

André Azevedo