O acolhimento dos refugiados (1ª parte)

Conforme relatara Marbot, em especial aquando da sua passagem pelas cidades desertas de Viseu e de Coimbra, iniciara-se a partir daí todo um movimento massivo de abandono da terra e de êxodo para a cidade de Lisboa, que, por medo dos franceses, ou devido ao incremento forçado da “política da terra queimada” de Wellington, terá desterrado, sem misericórdia, centenas de populações do Norte e Centro de Portugal. (37) Um bom exemplo destas partidas pela sobrevivência é o relato que fez também Frei Cláudio da Conceição, aquando da aproximação dos invasores à vila de Santarém:
“Pela entrada dos Francezes na Cidade de Coimbra no primeiro de Outubro de 1810 se assustarão os moradores da Villa de Santarem bastantemente; e chegando a noticia a 3 de Outubro, logo nos dias seguintes se evacuou a dita Villa de sorte, que no dia 7 do dito mez, já poucas pessoas restavam, nem na tarde desse dia já se ouvirão sinos, nem se abrirão as portas das Igrejas, á excepção do Santo Milagre, que ainda o Beneficiado Francisco de Paula Baptista rezou Vesperas”. (38) “Entretanto, para não caírem em poder do inimigo, alguns milhares de pessoas da Beira e da Estremadura tinham deixado as suas terras para se refugiar em Lisboa. O Governo reconhecia que tamanho aumento de bocas era de molde a perturbar as condições de vida na capital. Por isso, entendia-se encaminhar os que quisessem para as vilas da margem esquerda do Tejo, que dispunham de melhores meios de subsistência. (39)

(37) Conferir nos três artigos da primeira parte desta crónica, sob o título de “A 3.ª INVASÃO
FRANCESA DE PORTUGAL”.
(38) CONCEIÇÃO, Frei Cláudio da, Memoria do que aconteceo ao Santo Milagre de Santarem pela invasão dos Francezes naquela villa, em o mez de Outubro de Outubro de 1810 (…). Na Imprensa Regia, Lisboa, 1811, p. 16.
(39) SERRÃO, op. cit., p. 84.

Gustavo Pacheco Pimentel
Investigador

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