Tempos de Cultura e Conhecimento

Parece-me que, respondendo ao convite, devo construir algumas frases a propósito  de novos procedimentos nas áreas correspondentes ao tema. Nestes últimos anos de ação autárquica temos procurado desenvolver novas formas de entendimento para a ação cultural e, também, do conhecimento.

Através de um conjunto diversificado de propostas de trabalho e de realizações concretas, temos defendido a importância que esta ação apresenta para o desenvolvimento e promoção da terra e das suas gentes. É certo que não se pode deixar de ter em consideração um fator decisivo para a implementação de uma nova forma de entender a realidade e os procedimentos de natureza cultural. Ao longo dos tempos passados não houve uma afirmação concreta e promotora de ações desse âmbito que pudessem ser dirigidas a todos os que aqui vivem, sem considerações abusivas sobre a sua proveniência, estado social ou formação. Daí que se tenha menorizado a sua importância e valor formativo.
Assim, as atividades são proporcionadas a todos, sem qualquer forma de exclusão, abrangendo setores importantes da nossa vida e do nosso desejo de conhecimento: grupos musicais, ópera, canto lírico, música tradicional, exposições e palestras.
A estes acrescente-se a preocupação com a salvaguarda do património existente: Capela de Nossa S.ª do Calvário; complexo escolar integrando a Igreja do Espírito Santo e a edificação do bloco escolar contíguo, de 1915; o moinho do Bento – antes do Nobre; o pórtico de Paço dos Negros e a Fonte de S. Roque [em preparação com entidades conhecedoras do processo]. Para os apressados diria a tradicional frase: grão a grão enche a galinha o papo.
2- Uma das questões do património cultural é a que se refere à clareza da informação e dos dados da vida que aqui se foi desenvolvendo. Se bem que não a possamos considerar como património imaterial, há que ter em conta que constitui um sentido de Verdade, necessário, e que enriquece Almeirim, conferindo-lhe a seriedade necessária nestas coisas da divulgação e promoção. Quero dizer que é importante confirmar e credibilizar as informações sobre a História local.
3- Volto aqui a um tema que considero importante: a questão da Misericórdia. Já tive a oportunidade de afirmar que só aparece no ano de 1948. Agora, depois de mais pesquisas e estudos, tive acesso a uma carta escrita pela Misericórdia de Goa e dirigida à Misericórdia de Santarém, isto no ano de 1635.
Esta informa que recebera a importância de 389 cruzados e 6 reis, provenientes de Macau e enviados pela Misericórdia daquela cidade. A importância fazia parte do legado de um Domingos Pereira Almeirim, falecido em Macau, em dezembro de 1630 e era dirigido à sua mãe. A referida Casa da Misericórdia de Goa acrescenta que a sua congénere de Macau lhe enviara, posteriormente, mais 1.195 cruzados, 1 tanga e seis reis, acrescentando que havia recebido informação da Misericórdia de Santarém, a propósito da mãe, ou herdeiros, do Domingos Pereira.
Nessa informação verifica-se que a Misericórdia de Santarém tinha realizado um conjunto de recolhas de informação em Almeirim a pedido de Macau. Ficamos a saber que vivera em Almeirim uma mulher de nome Isabel Roiz (Rodrigues) que, sendo solteira, tivera um filho de um Domingos Pereira que também se chamara Domingos. Este fora para as partes do oriente. A Isabel Rodrigues tivera mais uma filha, de nome Maria Rodrigues, que casara com Luís Francisco e que falecera em 1633. Esta tivera três filhas, uma de nome Isabel dos Santos, já falecida, mas que deixara um filho de nome Manuel. A outra chamara-se Maria Quaresma e estava casada com Manuel Leal e a terceira era a Juliana Marques, casada com António Nunes. Todas herdeiras.
Estas informações, que se revelam importantes para o conhecimento da vida almeirinense do século dezassete, foram fornecidas à Misericórdia de Macau pela sua congénere de Santarém, como já se referiu.
Na sua carta à Misericórdia de Goa, que recebera o dinheiro enviado pela de Macau, solicita à de Santarém que informe os herdeiros para reclamarem a dita herança.
Ora, este procedimento reforça e confirma a afirmação da não existência de Casa da Misericórdia em Almeirim. Se existisse, os contatos teriam sido com ela, pois a informação pretendida era sobre gente desta, então, vila..
4- Recebemos há dias um pedido de informação sobre uma figura almeirinense. Existe em Manteigas a Casa da Fraga. Na apresentação de propostas àquele município, para o orçamento participativo, um grupo de moradores quer incluir a recuperação da Casa da Fraga. Para esse efeito solicitam informação sobre Alfredo César Henriques.
Já me tinha deparado com este Alfredo quando consultava a matriz predial de Almeirim de 1862. Era herdeiro de João César Henriques e irmão do Dr. João César Henriques – este tinha o mesmo nome do pai. Nesta Matriz aparece como herdeiro e com as propriedades: um quintal na Rua dos Apóstolos, hoje Miguel Bombarda; a propriedade denominada as Silvas; outra denominada as Pombeiras e ainda outra conhecida como os Trinta, tudo no campo de Moncão, em Almeirim. Tendo contraído a doença da época, a tuberculose, procurou o Dr. Sousa Martins. Este médico bem conhecido defendia a cura nas altitudes da Serra da Estrela, à semelhança do que se fazia nos sanatórios suiços. Alfredo César Henriques mandou construir a Casa da Fraga, em 1882, no concelho de Manteigas, para viver e tratar-se da tuberculose. Segundo informação constante no site da Câmara de Manteigas, é indicado como santareno e primeiro tísico a ser tratado na Serra.
Estando já curado em 1884, vai apostar no arrendamento de casas na zona. Assim, compra terrenos próximo da Casa da Fraga, em 1886, e constrói algumas casas em madeira. Estas foram vandalizadas.
Uma figura almeirinense, quase desconhecida, que teve relevância noutras terras. O pedido ao leitor será o de nos informar se tiver conhecimento sobre algum herdeiro de Alfredo César Henriques.
Acrescento que, nestas pesquisas sobre a família, identifiquei vários irmãos do Dr. João César Henriques, a saber: a irmã Maria, a mais velha, depois é o Alfredo e a seguir o José.

Eurico Henriques

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