“É nosso desejo acarinhar cada vez mais os nossos clientes”

José Saldanha (à direita na foto) é o Presidente do Conselho de Administração da Adega Cooperativa de Benfica do Ribatejo. O Sargento Mor, reformado, tem 57 anos e diz, orgulhosamente, que o bisavô e o avô foram fundadores da cooperativa.

José Saldanha, pai de uma filha economista e outra médica, é natural de Benfica do Ribatejo e quando há quatro anos foi desafiado a aceitar o cargo, a mãe, Maria Mendes Saldanha, foi decisiva. Recebeu o Almeirinense para falar do presente, passado e futuro da Adega.

Como correu a campanha de 2016?
No geral, a campanha irá ser superior à do ano passado porque, mesmo com os problemas com o tempo, as uvas entregues [esta entrevista foi realizada antes do fim da campanha] superou a do ano passado.

E em termos de qualidade?
Este ano não houve oídio mas a uva estava excelente, e isso é determinante para a qualidade dos vinhos. É o bom estado das uvas.

E isso também é o resultado da preocupação dos agricultores?
Os agricultores estão cada vez mais informados, apoiam-se cada vez mais em técnicos especializados para os ajudarem nos tratamentos da vinha e, cada vez mais, têm gosto pelo que fazem. Já perceberam que, hoje em dia, tudo carece de técnica e de acompanhamento.
Sabendo disso, e porque também é disso que vivem, de ano para ano nota-se uma melhoria da qualidade da uva apresentada.

E quantidades?
Ainda falta uma semana de vindimas, mas eu penso que vai superar os seis milhões de quilogramas, largamente.
Antes do início da campanha chegou a temer-se o pior?
Eu pensei que este ano fosse igual a 2011, é que houve uma quebra brutal na produção. Felizmente, os agricultores reagiram a tempo e salvaram a colheita.

Foi determinante a reação dos agricultores?
Sim, foi determinante, porque eles estavam de sobreaviso devido ao ano de 2011. De 2011 para cá, nunca mais afrouxaram as medidas. Ao mínimo sinal, tratam …
O ano de 2011 foi terrível, mas deixou uma grande lição aos nossos agricultores.

O tempo está mesmo a mudar?
Não sei. Eu, quando tinha a minha avó, perguntava-lhe se existiam anos assim, e ela dizia-me que toda a vida isto aconteceu.
Antigamente, não existia a informação que há hoje. Nós, hoje, sabemos a toda a hora – basta pegar no telemóvel – as temperaturas toda a hora… Antes não era assim.

Temos falado do futuro e do passado. Mas o presente?
Da mesma maneira que os agricultores estão de sobreaviso, nós, na adega, fazemos o mesmo. As vendas têm corrido bem, têm aumentado. Dificilmente nós conseguiremos aumentar mais, porque não podemos crescer muito mais. Há espaço para crescer mais um pouco. É nosso desejo acarinhar cada vez mais os nossos clientes, mostrar cada vez mais um melhor trabalho para que, no mínimo, as vendas se mantenham como estão.

Como se mantém o nível e como se consegue, até, aumentar?
Se nós não tivermos o cuidado de, a todo o momento, tentar produzir sempre com mais qualidade, os clientes não aparecem.

O cliente é mais exigente?
Sim, a todos os níveis. Quer no vinho, quer na apresentação de garrafa, o cliente é exigente em tudo.
A nossa adega tem vindo a implementar com maior rigor a fabricação dos vinhos, e a prova disso está, também, nos prémios que ganhámos este ano, e no aumento das vendas.
O nosso futuro passa sempre por fazer melhor, por produzir cada vez melhor. O futuro da adega, como eu digo regularmente, é estarmos atentos aos desafios do mercado, atentos às tendências, conservando o classicismo que faz a diferença.

Usou a expressão moda. É quase como a roupa?
Nós temos que ler muito e estar atentos às tendências que os clientes exigem ou preferem, para estarmos sempre atualizados. Por vezes, não se consegue ir tão longe e tão depressa, mas estarmos atentos às necessidades dos clientes, é muito importante.

A Adega de Benfica do Ribatejo está ao nível das melhores dos país?
Eu tenho medo de dizer isso. Não, não somos a melhor, seguramente. Há outras que trabalham melhor.
Com toda a certeza posso dizer que ainda temos alguns anos de atraso relativamente a outras, ainda não estão implementadas todas as medidas que outras já implementaram, mas havemos de lá chegar.

Esse é o desafio?
Esse é o grande desafio. Esta adega tem vindo, nos últimos anos, a fazer um esforço para não dever nada a ninguém … temos as contas em dia e só a partir de agora é que nos vamos lançar com mais segurança.

Foi como começar do zero?
Quando tomei conta da adega já estávamos em crescendo e a vir de uma situação mais favorável. Eu posso dizer que já apanhei a adega numa boa situação. Agora, há muito trabalho pela frente.

E em termos de pagamentos?
Em termos de liquidações, eu penso que a adega de Benfica será a adega que pagará melhor. Não tenho notícia de outra que nos supere. Mas temos outra coisa boa, que foi a alteração do ano económico e fiscal. Normalmente, as empresas trabalham de “janeiro a dezembro”. Só assim é que conseguimos fazer um apanhado, campanha a campanha.
Aquilo de que nós gostamos, aquilo que nós produzimos, aquilo que nós vendemos dá um retrato mais exato e mais fiel, se trabalharmos assim.
Nós não fazemos a liquidação antes da próxima vindima porque a lei não deixa, pois há necessidade de fazer uma Assembleia que aprove as contas.
O ideal seria os agricultores receberem o dinheiro das uvas antes de entregarem a próxima campanha, mas só são pagas pouco depois.