Campanha

Tradição de gerações e gentes, carregada de história e estórias, de festas e significados de enorme importância para estas terras. Tem inicio o assalto aos tesouros carregados em cepas por todas essas vinhas que ornamentam a paisagem ribatejana. Por estes dias, desde bem cedo, quase coincidente com as primeiras chamadas diárias do galo, como fuga ao impiedoso trato do sol, que bem alto tem feito ir os termómetros por este mês de agosto, habitual seria ver o que à distância daria a ilusão de enfeitadas criaturas a mergulhar por entre as parras. Outrora ranchos de barrões provenientes de longes terras portuguesas, recentemente os ranchos eram de gentes de outras nações, de alguns jovens da terra, que, confiantes, embarcam em vinícola demanda com fim de arranjar um pouco de independência dos bolsos dos progenitores, e os mais velhos, experientes e batidos em carreiras e cestos de vindima, não só a ensinar e a orientar como também a pôr à prova a tolerância conquistada durante anos, isto enquanto recordam os seus próprios tempos de outras uvas e encaram, lamentando, o caminho das juventudes e das cepas em que deixaram os suores. A pouco nem ranchos nem velhos calejados pelo sol. Os tempos mudam e com ele vem a justificação da exigência da introdução de mais rápidos e eficientes métodos. Longe se perdeu, os carros de bois e tratores tomaram conta do cargo de levar até às adegas o espólio das vinhas. Para os que conhecem ou de vindimas ouviram falar saberão que pouco é já como antes, como outros contavam, sabem que esta é uma tradição em mutação, em feroz competição de máquina e homem, onde o segundo vai perdendo o seu lugar, seja nas carreiras, seja nos lagares. Se a exigência da qualidade e resposta ao mercado poderá justificar a subjugação da tradição, o tempo e as gentes o dirão, mas até esta desaparecer por completo novas mentalidades surgirão. Cedo não acabará a relação do ribatejano com esta campanha, e com o iniciar é de esperar e bom de desejar a todos uma boa vindima.

 

Bruno Aniceto – Escritor

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