Pampilho ao Alto 14: Almas do outro Mundo

A minha mãe, viúva, tinha-me apenas a mim por companhia desde que os meus irmãos se casaram. Por essa época, não havia eletricidade nas Fazendas, sendo a iluminação feita por candeeiros a petróleo. No Inverno, às 11,00 da noite já é escuro há uma eternidade; mas era a hora a que eu chegava, vindo das minhas moinices, ou de Almeirim, onde aprendia o emprego. A escuridão e os serões de Inverno eram propícios às lendas de bruxas e almas do outro mundo, que apareciam às pessoas através de sinais ou barulhos estranhos. A minha mãe acreditava piamente nisto, e eu desdenhava com as minhas bravatas de rapazola para encobrir o medo. Numa dessas noites, dei com a minha mãe a chorar, sentada na cama e o candeeiro aceso no máximo. Dizia-me ela: filho, tu não acreditas, mas andam coisas aqui em casa, pois, mesmo agora, antes de chegares, eu ouvi barulhos esquisitos aqui no sótão, por cima do quarto, e mal tu entraste as coisas deixaram de fazer barulho. Tranquilizei-a e disse-lhe que naquela noite ia ficar junto dela para ver se ouvia o tal barulho. Dispus-me a dormitar na cadeira ao lado da cama dela, pelo menos até que ela adormecesse. Eis que, com o silêncio, irrompeu o tal barulho do sótão. Confesso que era mesmo aterrador. Dei um salto na cadeira, fiquei paralisado de medo, mas não podia deixar que as minhas fanfarronadas contra as almas do outro mundo ficassem ali reduzidas a zero. Então disse à minha mãe: eu vou ver o que se passa lá no sótão. Embora cheio de medo, peguei no candeeiro, dirigi-me para a adega (era o ponto de acesso ao sótão) encostei a escada à parede e subi. Mal olhei para dentro do sótão vi duas coisas a brilhar e o meu medo aumentou ainda mais, mas como sou de ver para crer, de pernas a tremer entrei no sótão e aproximei-me das coisas brilhantes. Sabem o que eram as duas coisas a brilhar? Nada mais que os olhos de um rato. O desgraçado tinha ficado preso pelo rabo numa ratoeira que a minha mãe há meses lá havia armado, e o coitado, quando não ouvia barulho na parte de baixo, tentava soltar-se, arrastando a ratoeira, que no silêncio da noite fazia um barulho medonho. Com o peito inchado de valentão, peguei na ratoeira com o rato pendurado pelo rabo e fui mostrá-lo à minha mãe, dizendo: aqui tem a alma do outro mundo. Lembro-me de como ficou feliz; não sei se pelo esclarecimento do mistério se pela demonstração de valentia do filho. Mesmo assim, não deixou de acreditar e ter medo das almas do outro mundo. Por mim, continuo a não acreditar em almas do outro mundo. Já bastam as deste para nos afligir a paciência.

 

Ernestino Alves- Advogado

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