ALMEIRIM pensar a cidade

Num tempo voraz que mal nos deixa pensar/refletir questionemo-nos por um momento. QUE IMAGEM LEVAM DA CIDADE OS NOSSOS VISITANTES? É bonita e atrativa? Como pode ser melhorada a paisagem urbana? Respondeu-me um visitante amigo: “Não encontrei nada de especial a visitar, nem referências que a diferenciem de outras vilas ribatejanas; pareceu-me uma vila (pequena cidade) agradável, planeada, em geral com arquiteturas esteticamente pobres excetuando a zona mais antiga em torno da Praça/Jardim e do Mercado. Esperava alguma referência cultural à história de Almeirim mas nada vi. Nota-se uma certa descaraterização, com construções de várias alturas lado a lado, sem homogeneidade, próprias de uma transição que procura libertar-se da imagem rural a favor da pretensão a cidade. Sendo plana convida a andar de bicicleta. Existem alguns espaços públicos e equipamentos de qualidade. Notei vivência e dinamismo na zona do desporto jovem próximo da Biblioteca, no agradável Parque Urbano, e um reboliço de excursões em torno da Praça de touros / zona da restauração. De resto pareceu-me uma vila pacata…” Um bom ponto de partida para refletir, digo eu.
A arquitetura das suas casas, de maior ou menor qualidade, é uma realidade estática por longos anos. A sua renovação é um processo lento e celular, prédio a prédio, casa a casa*. Só com intervenções exemplares, planos municipais de conjuntos urbanos e exigência de qualidade aos novos projetos/ construções poderão sentir-se a médio prazo melhorias na imagem da cidade. Mas nos tempos que vão correndo em que a crise da construção não dá sinais de renascimento. Mais eficazes e imediatas serão as qualificações de espaços públicos, com arborizações adequadas, ruas pedonais seguras e agradáveis em desfavor da presença totalitária dos carros. A rua Dionísio Saraiva (semi-pedonal) foi uma intervenção exemplar e outros espaços poderão ser eleitos como na zona dos restaurantes junto à Praça de Touros ou no eixo histórico da Praça/Jardim da República à Igreja. Ao contrário do que se possa pensar a imagem de uma cidade é fortemente marcada pelo chamado mobiliário urbano, sinalizações e publicidade de rua. A sua regulamentação e critérios são indispensáveis a uma boa imagem de harmonia e gosto. Uma esplanada de café tem mesas, cadeiras e chapéus de sol, e faz toda a diferença se forem escolhidas com critério normalizado e bom gosto. Compete à autarquia ordenar a sinalização direcional e publicitária, sensibilizar e licenciar o mobiliário exigindo qualidade. Contribuirá e muito para uma boa imagem da cidade.
TURISMO EM ESCALA MODESTA OU MAIS QUE ISSO? Em viagem, de férias ou fim de semana, procuramos visitar lugares ou cidades bonitas e atrativas, diferentes gentes e culturas, deliciarmo-nos com paisagens naturais ou ofertas culturais. Memorizamos os momentos de prazer e beleza, as imagens de cada lugar, como postais de recordação prolongada, com vídeo ou fotos a ajudar. As nossas apreciações referem-se a partes da cidade e não à sua globalidade, que só uma estadia prolongada permitiria. Um edifício, um museu ou conjunto arquitetónico, um bonito parque que se distinga pela sua qualidade ou inovação pode estrategicamente valorizar a imagem de uma cidade. A tal ponto que, numa pequena cidade, uma arquitetura de notória qualidade (para não falar em autorias de arquitetos consagrados) pode alterar decisivamente a sua imagem e procura. E à sua volta potenciam-se naturalmente novos projetos temáticos complementares.
Os exemplos de intervenções estratégicas bem sucedidas são muitas, no estrangeiro como entre nós:
A cidade industrial de Bilbau (Espanha) que, triste e acabada, renasceu e é procurada por milhares de visitantes devido à construção de um museu de arrojada arquitetura; a cidade do Porto ganhou uma nova estatura cosmopolita com a implementação de projetos estratégicos (rede do Metro, casa da Música, Serralves); em Leiria foi reabilitado um moinho de água pelas mãos do Arqº Sisa Vieira e isso bastou para nele encontrar uma excursão de estudantes de várias nacionalidades; mais modesta a vila de Sines promoveu a sua imagem exterior com o novo Centro Cultural e o Festival das “Músicas do Mundo”; poucos conhecerão a aldeia de Cem Soldos (Tomar) e no entanto organiza um festival de música de excelência a nível nacional.
Sem levar à letra os exemplos de grande escala, vem esta referência a propósito de possíveis intervenções inovadoras na nossa cidade. Queremos projetar-lhe um futuro caseiro e regional ou algo mais ambicioso? Ficaremos resignados à gastronomia de passagem ou seremos promotores de turismo cultural e lazer complementar? Até onde chega a criatividade/imaginação e a sustentabilidade financeira, condições indispensáveis para viabilizar boas ideias, com conta e medida? Excetuando a “Sopa de Pedra”, Almeirim não tem uma imagem identificadora forte. É preciso criá-la para lhe dar visibilidade atraente. Haverá suficiente participação da sociedade civil, massa crítica cultural e vontade política para tal projeto? Não poderemos pensar a cidade isolada da sua envolvente próxima e contexto regional. Qualquer abordagem turística deverá entender o conjunto de pontos de interesse a nível regional e não necessariamente de cada vila ou cidade isoladamente. Imaginemos um visitante de fim de semana que vem almoçar a Almeirim. Como preencherá a sua manhã ou tarde livre? Pode subir às “Portas do Sol” e desfrutar a panorâmica magnífica e única da lezíria do Tejo, visitar a Casa-Museu José Relvas ou a Casa-estúdio Carlos Relvas, a falcoaria de Salvaterra ou dar um passeio de barco no Escaroupim aldeia avieira, como exemplos. Tudo hipóteses viáveis de grande proximidade. E note-se que a melhoria de atratividade local não é incompatível com programações regionais provavelmente mais ricas e viáveis turisticamente.
AS ÁRVORES da CIDADE. A chegada do calor estival relembra a falta de sombreamento amenizador nas ruas e passeios da cidade. As árvores melhoram o ambiente, o conforto térmico, embelezam e humanizam a paisagem urbana. Árvores adultas e de copa generosa só no Jardim da República, Charquinhos, envolvente da Biblioteca ou Parque Norte, onde as sombras e frescura os tornam locais apetecíveis. A frondosa tília do cemitério é patrimonial e, quando floresce, inebria de cheiro toda a cidade. O mesmo não podemos dizer do Parque das Tílias mal medradas, já que por falta de regas, adubos ou cuidados se mostram intimidadas no crescer. Em geral as envolventes e recintos escolares são generosos com as arborizações e chilreios de passarada. As ruas estreitas dos bairros populares (Troia, Poupas e Pupo) quase sem passeios, não permitem mais que o espreitar de copas e ramadas dos quintais murados, a cor e o cheiro das laranjeiras floridas. Note-se que a laranjeira faz parte da identidade desta terra agrícola, de origem e presença moura, tal como as palmeiras memorizam a época áurea de Almeirim no tempo das descobertas.
Lamentáveis, (mas com futuro possível) são a ausência de árvores nas novas urbanizações, nas faixas de estacionamento e passeios ao longo das vias. Que se abram caldeiras sacrificando um ou outro lugar de estacionamento. Que se plantem árvores nas ruas que o permitem. Naturalmente que a escolha das espécies deverá ter em conta a exposição solar e exigem manutenção mas que não se deixem de embelezar as ruas com presenças vegetais que amenizam e enchem de cor a frieza dos prédios. O futuro vai dar-nos razão. Arborize-se o que falta na Rua dos Aliados, Rua Mário Soares e as urbanizações incompletas que bem agradecem. As árvores humanizam as cidades, são a presença da natureza no meio urbano, do campo na cidade, embelezam os espaços públicos e as construções, dão um colorido enriquecedor à paisagem urbana, transmitem equilíbrio e gosto pela vida urbana aos olhos e mente dos seus habitantes Plantem-se árvores nas ruas da cidade que o permitem.

Elias Rodrigues, Jun 2016

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