“Emigração e Pátria”, por Maria José Dias

Falou-se muito de ser emigrante, sobretudo em França nestes últimos tempos, mas muitos ainda não perceberam o sofrimento que houve na vida de tantos portugueses. Eis apenas mais uma história de um português que foi a salto até Paris. Conheceu os bidonvilles (os bairros de lata) de Champigny, tal como outros almeirinenses. Saiu por causa da miséria em que vivia, saiu para poder constituir família e ter um futuro. Esteve por lá cerca de vinte anos, sem nunca esquecer Almeirim, a terra onde nasceu e que tanto ama. Foi bombeiro, foi jogador da “União de Almeirim” e dançou no rancho folclórico da casa do povo de Almeirim (pertencendo ainda à classe dos veteranos), porém foi obrigado a deixar tudo parMaria José Diasa trás.

Por terras gaulesas, a vida não foi fácil. Veio casar a Almeirim e partiram os dois à aventura. Tudo era diferente: os portugueses iam sem saber falar a língua, sem entender aquele país tão diferente. Iam para trabalhar, mais nada. Sempre com Almeirim no coração, tirou “férias” no inverno de 1965 para que o primeiro filho nascesse em Almeirim. Nasci a 12 de fevereiro de 1966. Os dois filhos seguintes nasceram em Saint-Étienne e ainda bem porque, em Portugal, estes gémeos não teriam sobrevivido. A minha mãe ficou em casa para criar três crianças com pouca diferença de idade. Zelou pelo nosso bem-estar de perto, enquanto o nosso pai trabalhava (às vezes em deslocação). Juntou-se ao sofrimento dos dois novos desafios, sobretudo com os gémeos, relacionados com saúde. O sofrimento de pais e mãe é eterno, mesmo após a conquista da batalha. Mudámo-nos para a Côte d’Azur, o idílio para muitos, a continuação do sacrifício para outros. Fui feliz em França, mas não totalmente.

O meu pai não nos deixou ser felizes em França. Não quis que gostássemos dela e fez tudo por isso. Falava-nos de Almeirim e de Portugal, engrandecia esta terra de tal modo que era impossível não se apaixonar. Ficávamos eufóricos quando o mês de Agosto se aproximava. Íamos fazer o que não podíamos fazer em França: ver a família, jogar à bola na rua, andar de bicicleta, viver afinal aquilo que mais tarde seria a nossa “portugalidade”. No mês de agosto, íamos a Fátima, à praia da Nazaré e às festas da Nossa Senhora do Castelo em Coruche. Havia jantares com vinte, trinta pessoas, éramos felizes. O meu pai obrigou-nos a amar Almeirim, mas não conseguiu que a amassemos tanto como ele. Quando passávamos a fronteira entre Espanha e Portugal, os guardas perguntavam se íamos para Portugal, o meu pai respondia invariavelmente “ Não, vou para Almeirim.”

Com medo que os filhos começassem uma vida profissional e/ou amorosa em França, o meu pai fez-nos regressar a Almeirim; sim, regressar porque – apesar de só ter vivido em França até à data – Almeirim estava no código genético, logo inevitável. O meu pai continuou por lá ainda dois anos, mais um sacrifício. A minha mãe ficou sozinha com três adolescentes, sem marido, e também foi um sacrifício. Nós, filhos, reconhecemos e valorizamos a vida dura que ambos tiveram por nós. Hoje, damo-nos todos bem, somos uma família unida e, como filhos, tentámos apoiar e mimar os nossos pais ao máximo.

Esta é a nossa história, mas não é só nossa. É a história de todos os emigrantes que recordam e vivem o seu país a quilómetros de distância. É lá, naqueles países, que se vive a portugalidade de modo mais intenso. Muitos têm o mesmo desejo: o de morrer na sua pátria. O meu pai disse sempre: “A França não me há de comer os ossos”.

Obrigada pai e mãe.

Zézinha, Tó e Nelson (porque sei que os meus irmãos concordam com isto tudo)

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