Médico que salvou a vida de Bruno Canha em entrevista: “Percebemos que tínhamos que agir com determinação”

Já passaram oito anos do grave acidente que Bruno Canha teve, mas continua bem presente também no médico que operou o jovem e que a partir daí criou um amizade muito forte com o então paciente. O médico Sérgio Livraghi, um dos melhores da sua especialidade, abriu as portas do consultório e falou abertamente de um acidente que o marcou para a vida.

Que memória tem do dia 27 de fevereiro de 2007? Do estado em que o Bruno Canha chegou ao Hospital Santa Maria?
Passados que foram oito anos dessa data, recordo-me de ser um típico movimentado dia ao Serviço do CHLN, Hospital de Santa Maria (HSM), com vários casos de doentes que careciam de cuidados ou atenção urgente da minha especialidade que é a Neurocirurgia e também por ter o meu pensamento no aniversário da minha filha Sofia…
Os sons de determinados eventos ou máquinas podem traduzir emoções intensas e julgo que esse é o caso de todos os que, como eu, prestam Serviço de Urgência numa Instituição com a natureza do HSM, quando ouvem o tracejar do ar pelas pás do helicóptero do INEM. Sabemos que um ser humano, nosso irmão, se encontra a lutar pela Vida devido à gravidade dos seus ferimentos ou doença. É uma luta em que não se combate sozinho , em que se pode contar com o esforço incansável de tantos homens e mulheres que trabalham empenhadamente na área da Saúde para colocar ao serviço da sociedade e dos indivíduos os seus conhecimentos profissionais e qualidades humanas. Foi assim o primeiro contacto que tive com a pessoa que hoje em dia tenho o privilégio de contar entre os meus melhores amigos, o Bruno Canha.

Cedo perceberam que se tratava de algo muito grave?
O caso do Bruno é, infelizmente, um de entre várias centenas que ocorrem anualmente no nosso País, vítimas de um evento que lhes mudará a vida para sempre e que tem o nome técnico de Traumatismo Cranio-Encefálico Grave mas cuja expressão não revela a variabilidade do tipo de lesões e das condições em que as mesmas são causadas, estragos que ocorrem no órgão que nos define como Pessoa, Ser, que é o nosso Sistema Nervoso Central, o Cérebro.
O Pessoal que trabalha na área da Saúde, Enfermeiros, Técnicos de Saúde com formação em Suporte Básico e Avançado de Vida, Médicos, têm uma terminologia muito técnica e específica para definir e transmitir ao próximo elo da cadeia dos Cuidadores, o estado em que encontra o doente. Sabíamos por essa terminologia (Escala de Coma de Glasgow igual a cinco, mínimo três e máximo 15) que o caso do Bruno era dos mais graves.

O Bruno teve que ser de imediato operado?
Começou nesse instante em que, com a ajuda de um outro médico ainda em treino na área de Neurocirurgia, fomos receber o corpo maltratado, com o seu espírito em luta pela sobrevivência e percebemos que seria necessário agir com determinação e rapidez para o auxiliarmos nesse combate desigual.

O que foi feito nesta primeira cirurgia?
O Bruno tinha várias fracturas nos ossos do crânio e da face, além de um hematoma dentro da cabeça, a comprimir o seu Cérebro, severamente afetado pela intensidade da energia do impacto que sofreu. Assim, tal como noutras áreas, temos que definir prioridades. Primeiro temos que impedir que as alterações que ocorrem no organismo após o traumatismo provoquem ainda mais danos, nomeadamente assegurando que a respiração, a circulação do sangue e os “intervalos” de funcionamento do corpo se mantêm em níveis adequados ou qualquer esforço subsequente será inútil se estas condições Prioritárias não forem garantidas.
Depois, a intervenção cirúrgica no contexto da urgência segue o Princípio da Contenção de Danos ou seja tratar de uma forma célere os estragos ou lesões que colocam em risco a vida do doente, deixando para uma segunda fase a resolução de outros problemas menores que, sendo importantes, não colocam em Risco de Vida Imediato o doente.
Assim, foi feita uma Craniotomia (abertura do osso do Crânio) , remoção do hematoma que comprimia o Cérebro e reparação dos estragos na membrana que o envolve.

Se não tivesse sido logo operado, o Bruno Canha podia não ter sobrevivido?
Neste tipo de lesões relativamente frequentes, a convicção da opinião pessoal do médico deve ser relativizada, quando comparada com o conjunto do conhecimento científico que existe e que nos diz que a Medicina em geral e a Neurocirurgia em particular podem ser analisadas de uma forma Estatística, i.e., cada opção, cada doença, cada caso individual, tem uma determinada possibilidade (Probabilidade) de “correr” bem ou mal, a nossa limitação está na dificuldade que existe em determina-la para aquele caso em particular, como era a situação do Bruno.
Desta forma a probabilidade de o Bruno ter sobrevivido se não tivesse sido operado era muito, muito baixa.

O Bruno Canha mesmo limitado foi um lutado?
Há vários fatores que influenciam tudo o que ocorre durante o nosso período de Vida e estes eventos que estão associados ao que um grande fotógrafo (HCB) chamou “os momentos decisivos”, como este. Aqueles que dependem da Técnica, do Conhecimento, da Ciência, da Natureza e outros mais intangíveis, como a Esperança, essencial para os Homens de Fé, como é certamente o Bruno e eu humildemente tento ser. Sempre senti da parte do Bruno uma enorme vontade de viver, de não desistir ainda que o próprio dela não tivesse consciência.

Isso em que medida é importante?
Numa área em que a adversidade técnica é enorme pelas nossas limitações científicas, o desespero frequentemente estampado nos rostos dos familiares, a impotência em nós médicos alterarmos por vezes a progressão da doença, dos estragos, é essencial preservar essa extraordinária qualidade humana, que é de acreditar num final feliz, de nos superarmos perante uma situação que assim o exija e todos os contributos nesse sentido podem, dessa forma não tangível contribuir para devolvermos ao Ser doente a sua funcionalidade plena mas mais importante a sua mentalidade preservada.

Sempre acreditou na total reabilitação?
Considero-me uma pessoa que sente que aprende diariamente com o contacto com os outros, com a experiência de vida, acompanhando o evoluir da tecnologia e do conhecimento nesta e noutras áreas e aquilo que me motiva nesse desafio constante é acreditar em finais felizes, do qual o Bruno é uma excelente exemplo.

Estabeleceu uma relação com o paciente?
A nossa relação de amizade iniciou-se bastante tempo depois do nosso contacto inicial, no decurso da longa recuperação que o Bruno encetou desde este nosso “Momento Decisivo” mas posso dizê-lo orgulhosamente que foi um enorme privilégio ter tido a oportunidade de ajudar este jovem a recuperar a sua saúde e nenhuma recompensa teria sido mais extraordinária que a dádiva da amizade que hoje me une a uma fantástica pessoa, um exemplo na sua vontade de viver, na sua motivação para ajudar o próximo, para aprender novas áreas, generosidade ímpar , caráter íntegro, humor refinado, o melhor companheiro de petiscos e “copos”, enfim um grande Coração Ribatejano.

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