Banda resiste à crise

A Banda Marcial de Almeirim está a festejar mais um aniversário. A importante data, foi pretexto para uma conversa com José João Pereira. O também músico fala das dificuldades em sustentar a coletividade e na necessidade de fazer obras urgentes na sede.

Estão a celebrar uma data importante, que são os 84 anos da Banda. Quando olha para este passado recente, como é que têm corrido as coisas neste seu mandato?
Nunca da forma como nós esperámos, porque nunca estamos satisfeitos com aquilo que fazemos. Queremos sempre mais, isso é uma ordem natural do ser humano, a insatisfação e a ambição de querer sempre mais alguma coisa. Contudo, uns saem, outros entram… Houve um salto positivo, a formação da banda é cada vez melhor, há músicos com mais qualidade. É pena perderem-se muitos, derivado à universidade, cada ano letivo dizima sempre pessoal daqui. A formação de um músico demora alguns anos, por isso estamos a apostar cada vez mais nos mais jovens, porque permite uma maior duração deles na banda.
A banda em si tem resistido às várias dificuldades que vão surgindo, inclusive as financeiras que há em todo o lado. E até aos dias de hoje temos lutado.

Dificuldades financeiras, com o contexto de crise, ainda mais agravadas?
Sim, porque a Banda é das poucas instituições do concelho onde é tudo gratuito. A aprendizagem é gratuita, os instrumentos são da banda, os fardamentos são da banda. Temos miúdos aqui que vêm de outras instituições exatamente porque os pais, derivado à crise, já não podem tê-los noutros lugares.

É gratuito fazer parte da Banda?
Sim, tem apenas o encargo de uma quota semestral de seis euros. Para ter acesso à coletividade, um aluno que venha integrar a escola de música, o teatro ou a banda, tem de ser sócio da Banda por apenas 1 euro por mês.

Como se consegue atrair gente nova para um gosto tão particular?
Ao longo do tempo, a banda tem vindo a subir cada vez mais o nível. Faria uma espécie de divisão: um antes do Simões Ribeiro e um após o Simões Ribeiro. Com a entrada dele houve um voltar de página na Banda. Uma escola que não existia passou a existir, daí o resultado que temos. Quanto ao atrativo dos jovens, tentamos captar, esforçamo-nos para isso. Já se chegou a fazer espetáculos em escolas, procuramos sempre alguma coisa com que cativar. É difícil atrair a juventude hoje em dia porque a música é difícil por si mesma. Na música não há crianças, uma criança tem um papel igual a um adulto, tem de tocar da mesma forma, é uma forma única. Aprende-se nos livros, estudam e têm de chegar a casa e voltar a estudar, trabalhar em música, com muito esforço, por vezes com lágrimas… Música é difícil. Mas creio, no fundo, que são compensados com o êxito, com o conseguirem fazer.

Acredita que, apesar das dificuldades, o futuro está garantido com os elementos que têm vindo a entrar na Banda?
Com certeza. Não posso dizer que a nossa escola de musica está num crescente em pique, mas tem vindo a crescer. É natural que uns entram e outros saem. Uns resistem à dificuldade e aprendem e gostam e superam isso que são os nossos atuais músicos jovens. Os que não aguentam essa fase, que não suportam derivado talvez à muita oferta que existe, porque a música trabalha-se a sério, exige esforço para além das aulas, e há outros meios onde se poderá levar a ocupação do tempo de uma forma mais na brincadeira. Mas contudo creio que o futuro da banda estará garantido, tanto pelos jovens, como pelo nível artístico que esses jovens estão a atingir.

Pretende fazer essa mudança quando?
Ainda este ano de 2015. As eleições serão logo que possível, quando tiver a papelada toda em dia, reunidas todas as condições para se fazer a assembleia geral. Certamente irá aparecer alguém para o lugar, não ponho isso em causa.

Como é nesta altura a situação financeira da banda?
Temos algumas dificuldades, mas vamos resistindo. Muitas dificuldades mesmo. Já há alguns anos que não conseguimos comprar um instrumento, tivemos agora a felicidade de a Câmara oferecer dois instrumentos, uma trompete e um saxofone. Pode dizer-se que não há dívidas. As dívidas que temos são ao corrente, o ordenado do maestro um mês ou outro, mas de resto a Banda não tem problemas maiores por aí.

Como se resolveria esse problema? Mais atuações?
Sim, de facto existiam muitas atuações, as Comissões de Festas começaram a ter dificuldade porque as coisas deixaram de funcionar como funcionavam até à altura. Dantes pediam à Banda para fazer o peditório, fazer a procissão, acompanhar as fogaças. Hoje, a Banda vai fazer estritamente a procissão e serviços mais baratos, até ao ponto de muitos desses serviços se irem perdendo e as Comissões de Festas já nem pedem orçamentos, outras vimos a saber mais tarde que já nem fazem as procissões nem as festas, outras acabaram por fazer as festas sem recorrer a bandas… tem-se vindo a perder. Um concerto é sempre uma coisa mais agradável mas em parte é um serviço que traz muitas despesas à banda, porque não há uma fonte de receita, normalmente não temos ajuda nos concertos.

A Sede é vossa? Estão bem equipados?
Talvez. Não às necessidades da Banda, mas a Banda em si continuou a adaptar-se às instalações. De qualquer das formas, estamos bem equipados. Precisamos de um telhado, este já verte água por todos os lados, é um problema muito grave e que tem de ser resolvido com a máxima urgência. Seria importante resolver o problema antes do próximo Inverno e a banda por si só não tem capacidade para realizar essas obras.

Estamos a falar da Banda que também tem um grupo de teatro. Como está a funcionar?
O Grupo de Teatro está a funcionar bem, aparte as dificuldades dos jovens nesta altura do campeonato, os testes e etc. Tudo o que envolve juventude tem esse problema, quando chega a esta altura é crítico. Neste momento eu identifico-me mais com o grupo da banda, e tenho alguns músicos em Lisboa, outros em Évora, outros na Covilhã, estão espalhados por vários sítios do país para estudar e alguns nem aos fins-de-semana vêm. Portanto é difícil, há que os reunir, criar essa sensibilidade por causa dos ensaios.

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