“Escutismo é um estilo de vida”

Apesar de ainda jovem, Tiago Marques já soma quase 27 anos de escutismo. Entrou por influência de amigos e reconhece que foi obrigado a desenvolver competências que são úteis em todas as dimensões da sua vida.

Há quantos anos é que é escuteiro?
Sou escuteiro desde 1988, há quase 27 anos

O que é que o levou a querer fazer parte deste grande movimento que é o escutismo?
Quando entrei, tinha apenas 8 anos, fui motivado pelas amizades que já tinha dentro dos escuteiros. Vários amigos meus eram escuteiros e fiquei curioso em perceber melhor o que era.

O que é que o escutismo significa para si?
É uma pergunta muito difícil de responder, para mim é quase uma vida. Mas penso que a melhor forma de o descrever é dizer que o escutismo é um estilo de vida. Obriga-nos a desenvolver muitas competências em áreas muito diversas, que acabam por nos ser úteis em todas as dimensões da nossa vida.

Como chefe e como exemplo para os jovens escuteiros, de que forma é que o escutismo serve como um processo de aprendizagem e como um crescimento individual?
O escutismo é uma forma de educação integral não formal. Isto significa que o escutismo educa para a vida, em diversas áreas. O nosso programa pedagógico está organizado em seis áreas de desenvolvimento: físico, afetivo, caráter, espiritualidade, intelectual e social. Para além destas áreas que trabalhamos no sistema de progresso, o escutismo tem um enorme património de técnicas de animação, nós e amarrações, orientação e outras atividades que são aliciantes para as crianças e jovens.

E coletivo?
Uma das áreas de desenvolvimento mais notável é a social. O crescimento que as crianças e jovens fazem no seio dos pequenos grupos (bandos, patrulhas, equipas ou tribos) potencia o desenvolvimento do espírito de equipa. Ajuda com um dos indivíduos a descobrir competências individuais que são úteis ao coletivo, assim como estimula a confiança nas capacidades dos outros.

Como é que a religião católica pode estar diretamente relacionada com o escutismo?
A espiritualidade é um dos alicerces dos escutismo desde a sua origem. Baden-Powell, o fundador do escutismo era um cristão evangélico (protestante), por isso o catolicismo não está ligado ao escutismo enquanto movimento mundial. No entanto, a dimensão espiritual no desenvolvimento das crianças e jovens faz parte do programa pedagógico do escutismo.
A nossa associação, o Corpo Nacional de Escutas, nasceu como um movimento da Igreja Católica Portuguesa, por isso a sua ligação faz parte da sua estrutura.

Estão abertos a receber jovens ou crianças que não sejam católicos praticantes?
Sim, claro. A palavra “praticante” está muitas vezes relacionada com hábitos regulares de participação na comunidade da Igreja. Não é uma condição para a inscrição no Corpo Nacional de Escutas, no entanto, a entrada no movimento implica que a criança ou o jovem assuma o compromisso de fazer o percurso de iniciação cristã, ou seja, o batismo, a eucaristia (primeira comunhão) e crisma, de acordo com a sua idade.

O escutismo um movimento mundial. O Tiago Marques ou os escuteiros almeirinenses já viveram com escuteiros de outras nacionalidades?
De facto o escutismo é um movimento e uma fraternidade mundial. Em termos associativos, o escutismo está organizado a nível internacional através da Organização Mundial do Movimento Escutista (OMME, WOSM no original). O Corpo Nacional de Escutas , através da Federação Escutista de Portugal, faz parte desta organização. Por isso, tem a oportunidade de participar em todas as atividades que são organizadas por esta entidade.
O nosso agrupamento já participou no Jamboree Mundial na Holanda em 1995, no RoverWay 2006 em Itália, no RoverWay 2009 na Islândia e no RoverWay 2012 na Finlândia. Para além destas atividades já participamos noutras atividades nacionais em território estrangeiro, assim como já estivemos com escuteiros de outros países em atividades em Portugal.
Este ano vamos participar no Jamboree Mundial no Japão, com um grupo de 13 jovens e um adulto.

Internamente (entenda-se Portugal) há várias jornadas com escuteiros de várias cidades e regiões?
Sim, todos os anos existem atividades regionais por secções, ou seja, dos Lobitos, Exploradores, Pioneiros e Caminheiros, que é a forma como nos organizamos por idades. Para além destas atividades anuais, realiza-se de 4 em 4 anos o ACAREG, o grande acampamento regional, que conta com cerca de 1500 participantes.
A cada 5 anos temos também o ACANAC, o acampamento nacional do Corpo Nacional de Escutas, que na sua última edição contou com cerca de 15.000 participantes.

Porque é que aconselha o escutismo a pessoas que não fazem parte deste movimento?
Aconselho principalmente a crianças e jovens, porque os ajuda no seu desenvolvimento pessoal a vários níveis. Temos uma proposta educativa que assenta em valores que devem estar presentes na vida de qualquer cidadão.

Quantos escuteiros existem em Almeirim no vosso agrupamento?
Neste momento temos 116 crianças e jovens e 28 adultos, num total de 144 elementos.

Tem crescido o número?
Sim, apesar de algumas oscilações nos últimos o efetivo tem crescido cerca de 10% por ano.

Porquê?
Penso que são fluxos geracionais, o que já aconteceu noutras alturas. Por vezes existem elementos que conseguem trazer muitos elementos novos da sua idade. Penso que este facto se deve a conversas que têm na escola ou que os seus pais têm com os pais de outras crianças.

Tenho ideia que no passado houve um número acentuado de saídas. Isso ficou a dever-se a quê?
Têm havido sempre saídas, penso que é muito difícil apontar um momento preciso em que tenha ocorrido com uma frequência anormal. No entanto, as razões para sair são diversas. Penso que não será errado dizer que na saída de crianças e jovens deve-se, na maior parte dos casos, a desmotivação e à existência de outras atividades. No caso dos adultos, a principal razão que leva à saída é a falta de tempo (por motivos profissionais, pessoais, familiares, entre outros).

Como é feita a progressão no escutismo?
Existem quatro secções para os associados não dirigentes, ou seja, as crianças e jovens entre os 6 e os 22 anos de idade. Os Lobitos (6-10 anos), os Exploradores (10-14 anos), os Pioneiros (14-18 anos) e os Caminheiros (18-22 anos). A passagem entre esta secções acontece de forma natural, dependendo da idade. No entanto, dentro de cada uma das secções existe um sistema de progresso, baseado nas áreas de desenvolvimento (físico, afetivo, caráter, espiritualidade, intelectual e social) onde existem 3 etapas que dependem da concretização de objetivos pessoais e adaptados a cada elemento de forma individual.

Como custeiam as vossas despesas?
A nossa disponibilidade financeira tem essencialmente três fontes de receita: os associados, apoios/subsídios e atividades de angariação de fundos. A parte dos associados cobre as despesas com inscrições, a nível local, regional e nacional bem como seguros contra acidentes pessoais. Os associados assumem também o custo do seu equipamento individual e o custo de participação em atividades. No entanto, os apoios que recebemos e as atividades de angariação de fundos permitem reduzir o custo de participação nas atividades, a aquisição e manutenção de materiais e equipamentos.

Depois de no ano passado ter existido uma grande jornada que juntou novos e “velhos”. Haverá algo do género ou será só em datas “redondas”?
De facto foi um grande acampamento que juntou muita gente, e foi muito especial para todos os participantes. A avaliação foi muito positiva. No entanto, o esforço que exigiu a organização desta atividade faz-me prever que para já será uma coisa a pensar em datas certas. Talvez se possa voltar a realizar na comemoração dos 45 anos do agrupamento.

Têm algum projeto ou novidade para 2015?
Este anos temos muitas atividades decorrer, em todas as secções, mas a mais vistosa será a nossa participação no Jamboree Mundial em Yamaguchi, no Japão. Trata-se da maior atividade escutista a nível mundial, que nesta edição se prevê que tenha cerca de 40.000 participantes de todo o mundo.
O nosso grupo é composto por 12 elementos do nosso agrupamento, e uma pioneira do nosso agrupamento vizinho, o 1186 de Fazendas de Almeirim, acompanhados por um adulto. Será uma grande aventura de quase 3 semanas, a mais de 11.000 Km de Almeirim.

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