“Ninguém pensou que hoje poderia estar aqui”

Pelas 14h57 do 25 fevereiro de 2007, Bruno Canha tem um acidente de moto muito grave, perto da Calha do Grou, e fica entre a vida e a morte. Bateu com a cabeça na bola de engate e teve lesões graves na cabeça.
“Bati com a cabeça na bola de engate. Os óculos que levava fizeram-me um corte grande e profundo, destruindo o lado esquerdo da cabeça tocando mesmo no cérebro”.
O acidente foi de tal forma grave, que Bruno Canha foi transferido diretamente de helicóptero para o Hospital de Santa Maria, em Lisboa.

“Ninguém pensava que eu sobrevivia, nem quem me prestou o socorro cá, nem em Lisboa. Não foi uma batalha que fosse fácil”, começa por descrever Bruno adiantando que “estive três dias em coma induzido e
no primeiro mês fizeram-me duas cirurgias, uma de três horas e meia e outra de 12 horas para tentar reconstruir a cabeça. Cheguei a fazer outra por ter a cabeça rôta e para tapar os buracos que estava abertos, pois perdia liquido da cabeça para o organismo. Podia apanhar uma meningite a qualquer momento”.

Bruno Canha perdeu logo no momento do acidente a visão do lado esquerdo. “Foi uma história de vida porque ninguém acreditou que era possível estar aqui. Cheguei a perder massa encefálica e voltei a fazer a vida normal, não se notando as mazelas de quem teve um traumatismo crânio-encefálico muito grave”, acrescenta.

Nesta luta que travou, confessa que a relação com a fé tornou-se mais intensa: “Eu antes não admirava tanto a medicina, agora admiro e também acredito que estive nas mãos de Deus”. Bruno sublinha que sempre teve fé, mas “não tanto como agora”.

Bruno é filho único e os momentos depois do acidente foram de grande sofrimento para os pais. Bruno não hesita mesmo em dizer que “os pais foram heróis. Lutaram muito pela minha vida, se não fossem eles poderia não estar aqui. Eles nunca me abandonaram um único momento. Chegaram a vir a casa e voltar para Lisboa. Digo sempre que também devo muito a minha vida a eles”.

No ano em que teve o acidente, quis o destino que fosse o ano do nascimento do filho de Bruno. “Eu vim vêlo nascer a 1 de junho e depois regressei ao hospital. Deu-me também uma força inexplicável. Ele deu-me muita força, mas eu acredito que foi Deus que não me deixou ir abaixo psicologicamente.”

“Nós nunca nos devemos gabar se fomos ou não heróis, mas os médicos disseram-me que sim, que fui um herói. Custa-me dizer,
mas se calhar fui um herói a tentar lutar pela vida”, comenta a meio da conversa com O Almeirinense quando recorda que o médico lhe ofereceu um livro dos 101 herois, dizendo que Bruno tinha sido um heroí.
No futuro e com uma cicatriz no rosto, Bruno “não pensa fazer mais cirurgias, a menos que seja mesmo necessário. Não quero arriscar
mais, porque há receios de estragar o que já foi feito”.

Desde o acidente, Canha só por uma vez andou de moto e foi recentemente, porque decidiu vender “as duas motas que tinha e disse sempre ao meu pai que ia acabar com as motas. Não quero mais, o que tinha de fazer com motas já fiz. A vida continua e esquecer o que foram as motas. A pista onde andávamos nunca mais foi utilizada. Está no mesmo sitio, mas invadida por ervas”.
A concluir a entrevista, agora como pouco mais de 30 anos, Bruno Canha nunca se foi abaixo e “acho que devemos ter confiança nos
médicos. Depositei total confiança em todos os médicos e até entrei na última cirurgia a sorrir”. A confiança passou entretanto a amizade
e Bruno tem uma relação impar com os médicos Sergio Livraghi e Pedro Cabral.

Bruno Canha pretende passar para um livro a história do que este acidente lhe mudou a vida e até já começou a escrever as primeiras páginas.

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